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Um estudo de caso de psicose infantil: uma reflexão sobre a constituição do sujeito


Introdução


A psicanálise atribui grande importância à sexualidade no desenvolvimento e na vida psíquica do ser humano, em especial no período da infância, onde ele a concebe atuante desde o princípio da vida e que prossegue em ampliação no chamado campo sexual. Contrariando o pensamento da época, Freud estabelece que existam numerosas transições entre a sexualidade perversa e a chamada sexualidade normal (LAPLANCHE, 1992. p. 476).

A gênese da estrutura da sexualidade acontece pela formação do complexo de Édipo e sua dissolução, que ocorre no plano simbólico, este se ocupa em marcar o sujeito por conta da castração por onde podemos encontrar um ponto de ordenação que irá oferecer ao sujeito condições de construção da uma identidade sexual e estrutura do seu psiquismo. É pelo estudo aprofundado das manifestações sexuais durante o período da infância, bem como os estímulos são apresentados e elaborados, nos revelaria traços que estruturam a pulsão sexual, que virá a desvendar a sua evolução e que permitirá ver como se compõe o funcionamento mental do sujeito. (FREUD, S. 1905).

Este artigo surgiu a partir do atendimento clínico do autor, em sua clínica, no período de Novembro de 2010 e Junho de 2011. A fim de preservar o anonimato, os nomes do caso e de seus familiares serão fictícios. O objetivo nesta investigação será o tratamento realizado no Caso Lucas discutindo-o sob a luz da psicanálise.

A partir do atendimento psicológico, alguns questionamentos foram objetos de discussão clínica desde estudo, portanto faz-se necessário, esclarecer como se forma a estrutura da psicose infantil de acordo com a teoria psicanalítica e a partir disso inferir como a realidade é entendida pelo sujeito que apresenta tal estrutura mental diferenciando-a de uma estrutura neurótica. A seguir considerar os mecanismos mentais que surgem como tentativas de reverter o quadro de psicose infantil e por fim articular a teoria com o Caso Lucas.



Psicogênese da Estrutura Clínica da Psicose Infantil


O início do tratamento psicanalítico depende daquilo que Freud chamou de tratamento de ensaio cuja principal função é realizar um diagnóstico do paciente em relação a sua estrutura clínica, a saber, neurose, perversão ou psicose. Munido deste diagnóstico diferencial surge a orientação e a forma de condução da análise, bem como a avaliação do analista de si mesmo ao pensar se poderá dar conta deste caso que se apresenta. (QUINET, 1993).

A investigação acontece no plano simbólico, onde surge a construção da sexualidade formada pelo complexo de Édipo e sua dissolução que marca profundamente o sujeito, a partir da castração, fundando sua estrutura. Segundo Moreira (2004), por esta estrutura o sujeito organiza o seu viver, sobretudo o seu posicionamento diante da angústia de castração, na maneira como ele se posiciona diante Outro. Sendo assim é por meio do diagnóstico estrutural que podemos analisar o modo como o sujeito negou a vivência da castração.

O processo de castração inicia um complexo de mesmo nome que surge do conflito entre as explicações dos adultos com relação às origens da sexualidade e da vida tendo por motor uma necessidade prática ao invés de uma curiosidade conforme sugeria o senso comum da época. O temor criado pelo narcisismo primário de perder o lugar junto aos pais devido a chegada de um novo bebê é o sinal de um processo que marcará o sujeito através da chamada angústia de castração. Como resultado deste conflito estas teorias são recalcadas ao inconsciente e passam a agir desde lá. É a partir deste processo que é formado um “complexo nuclear das neuroses” e suas escolhas posteriores e, ao fim, constituída a Estrutura Clínica do sujeito. (FREUD S.,1908).

As diferentes estruturas clínicas, segundo Freud, são Neurose, Psicose e Perversão, e a diferença genética entre uma neurose e uma psicose encontra-se na seguinte afirmação: “a neurose é o resultado de um conflito entre o Eu e o Isso, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o Eu e o mundo externo” (FREUD, S, 1924, p. 167). O neurótico ao recalcar a sua angústia de castração faz com que ela tenda a retornar no simbólico sobre a forma de sonhos, atos falhos ou representações substitutivas, isto é, os sintomas. Estas vias por onde os materiais reprimidos conseguem chegar ao Eu continua a prejudicar a sua unidade e faz permanecer a luta contra o sintoma da mesma forma como anteriormente com a pulsão original (ibdem).

Por outro lado, o mecanismo da psicose apresenta um distúrbio na relação entre o Eu e o mundo externo, aqui a castração não existe e provoca uma rejeição da realidade, com as barreiras do limite entre o sujeito e o outro. Existe na psicose, segundo Freud (1894), um mecanismo de defesa que é muito mais forte que o de qualquer neurose, que é do “eu rejeitar”, onde o sujeito recusa uma representação do que lhe é insuportável, como se ela jamais tivesse alcançado o seu Eu. Desta forma existe uma rejeição da representação incompatível com seu Eu projetando-a no mundo externo, geralmente retornando a ele como algo mortífero.

A causa comum de uma psiconeurose e de uma psicose, segundo Freud (1924), são as mesmas e que consiste em uma frustração externa de um daqueles desejos de infância que não fora realizados e que nunca foram vencidos permanecendo profundamente enraizados na nossa estrutura psíquica. O que fará desta frustração tornar-se patológica é a forma como o Eu irá elaborar esta tensão “escolhendo permanecer fiel à sua dependência do mundo externo e tentar silenciar o isso quanto ao mundo externo, e constituir, até certo ponto, um modelo ideal daquilo que visa o esforço total do Eu: uma reconciliação entre os seus diversos relacionamentos dependentes” (p.169).

A psicose, portanto é um fracasso ao funcionamento do Ego por conta da dificuldade em conciliar todas as exigências feitas a ele, pelo Isso, tendo como resultado um afastamento do mundo externo.

A fim de determinar a decisão da Psicose infantil, Kupfer (2000) cita Mannoni (1987, p.124) exemplificando o modo próprio de conceber a psicose infantil ao colocar a criança psicótica como pertencente a um mal-estar que é o efeito de um discurso coletivo:


O destino do psicótico se fixa a partir da maneira pela qual foi excluído por um ou por outro dos pais de uma possiblidade de entrada numa situação triangular. É isso que o destina a não poder jamais assumir qualquer identidade. Preso desde o seu nascimento num quadro de palavras que o fixam reduzindo-o ao estado de objeto parcial, é preciso, para que possa entrar um dia como sujeito no tratamento, que o sistema de linguagem no qual se encontra aprisionado se modifique de início. É em seguida somente que vai poder ser resolvido pela linguagem.


Mais especificamente, pelo viés teórico de Lacan (Kupper, 2000),


a psicose se estrutura a partir da forclusão do significante Nome-do-Pai. Dito de outra maneira: a presença onipotente da mãe – ou, se preferir, da língua materna – impede a operação da função paterna, essa que poderia carregar consigo aqueles significantes capazes de funcionar como pontos de basta, como articulares, como ponto nodais dos feixes de cadeias significantes necessárias à constituição e ao exercício de um sujeito.


A Realidade na Psicose Infantil

Normalmente, segundo Freud (1924), o mundo externo governa o Eu pelas percepções atuais, que sempre se renovam; e também através das lembranças armazenadas de percepções anteriores que formam um mundo interno tal como o mundo externo que no quadro de psicose perde o investimento da libido. Como resultado desta falta de investimento e rejeição da representação pela incompatibilidade do Eu, Freud explica que:


“O Eu cria, autocraticamente, um novo mundo externo e interno, e não pode haver dúvida quanto a dois fatos: que esse novo mundo é constituído de acordo com as pulsões desejosas do Isso e que o motivo dessa dissociação do mundo externo é alguma frustração muito séria de um desejo, por parte da realidade – frustração que parece intolerável.” (FREUD, S. 1924, p.168)


Durante o processo de surgimento da psicose é de fácil percepção a existência de duas etapas: “a primeira arrasta o Eu para longe, desta vez para longe da realidade, enquanto a segunda tentaria reparar o dano causado e restabelecer as relações do indivíduo com a realidade às expensas do Isso” (FREUD, 1924c, p. 206). A nova realidade, criada sob o poder do Isso não contém nenhum elemento com oposições ao Eu, tal como era antiga realidade, porém tal realidade é naturalmente inclinada para uma reparação.

O conceito de reparação proposto por Freud (1924c) trata do mecanismo psicótico que estabelece uma fuga inicial por conta da necessidade de um remodelamento, que em seguida repudia (forclusão em Lacan) e tenta substituir na construção de uma nova realidade alicerçadas a partir de antigas relações da mente usando representações presentes na memória, ideias e de julgamentos.

Outra tarefa que a psicose se importa é a construção de novas percepções próprias para corresponder com a nova realidade, e isso acontece por meio das alucinações e delírios, que se apresentam de forma aflitiva. Aqui o mundo imaginário surge como nova realidade. e, na maior parte das vezes, acompanhada de ansiedade gerada pelo fim do processo de remodelamento.

Como parte de processo de remodelamento da realidade e adoção da uma nova realidade imaginária a ansiedade possui o papel de ser uma reação contra a tentativa do regresso do fragmento da realidade voltar ao Eu. Isso ocorre na mesma forma que em neurose, porém neste último caso a reação é contra uma pulsão reprimida.


Relato do Caso

Lucas, sete anos, veio ao consultório de Psicologia, no dia 03 de novembro do ano de 2010, acompanhado da mãe e da irmã mais nova. Ao chamar o nome do paciente, a mãe encaminhou-se rapidamente trazendo os dois filhos pela mão e tentando equilibrar as diversas bolsas que trazia consigo. Ao entrarem reconheci o nome da criança que era chamado em alto tom na sala de espera e percebi que o L. não conseguia permanecer sentado e nem concentrar-se em apenas uma tarefa, totalmente diferente do comportamento apresentado pela irmã.

Ele vestia uma blusa com quatro carros que se apresentavam em par mostrando a parte de cima e a parte de baixo do mesmo carro. Tal blusa chamou-me atenção por estar em consonância com o carrinho que ele trouxe na mão, que a mãe destacou que ele só sairia de casa com ele, e por ter todo o seu diálogo voltado ao assunto de carros de brinquedo, excluindo os reais ou qualquer representatividade do mesmo.

O diagnóstico apresentado pela mãe foi o recebido da escola e pelo neurologista, TDAH, (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), e como resultado estava sendo medicado com metilfenidato, estimulante do sistema nervoso central, periciazina, neuroléptico, e imipramina, um antidepressivo tricíclico, mas que fora recentemente suspenso dias antes da consulta. O principal motivo da busca da psicoterapia foi justificada porque apenas as medicações não estavam apresentando efeitos.

A mãe apresentou como demanda o que ela chamou de ansiedade, taquifemia, e hipercinésia. Afirmou que L. não consegue escovar os dentes sozinhos e que algumas vezes usava da mão dos outros como se fossem as suas para realizar tarefas simples. No momento que L. percebeu que estávamos falando de suas características negativas o mesmo rapidamente escondeu-se debaixo da maca do consultório evitou nos olhar e como a mãe não cessava o relato, em um rompante levantou-se dizendo que queria ir embora, que não queria mais ficar ali e que desejava a morte da mãe, tudo isso em voz alta e com dedos em riste.

Solicitei a saída da mãe e fiquei apenas com ele que ainda murmurava o desejo da morte da mãe por meio de uma bomba. Algumas notas dos primeiros contatos: L. insistiu durante muito tempo em afirmar que a mãe era apenas sua tia, desejava a morte da “tia” e muitas vezes confundia as palavras e acabava dizendo mãe; o tempo inteiro mexia na roda do carro ou o fazia correr por sobre a mesa, não conseguir ficar quieto na cadeira, levantando-se a todo instante ou escorregando pelo assento, todos os objetos no qual ele falava sempre eram explicados por meio de mensurações matemáticas como pesos e medidas, as vezes as comparações excediam ao estrago que aquele objeto faria caso caísse ou se viesse a explodir, quando contrariado apresentava o comportamento concomitante de cerrar os punhos, mostrar os dentes, enrijecer todos os músculos e rosnar.

Neste primeiro dia foi muito complicado estabelecer um assunto contínuo, mas foi possível ainda perceber que ele estava consciente do tempo e espaço, sabia que mentia ao chamar a mãe de tia e que conseguia contar histórias e fatos inteiros e de forma lógica e linear. Saía constantemente do consultório para falar com a mãe e ir várias vezes ao banheiro e não me convida para brincar com ele e mesmo com permissão concedida não estabelecia contatos durante os jogos, tinha dificuldade de inventar histórias e diálogos, não conseguia desenhar figuras humanas e vivias, só sabia produzir carros que não passavam de borrões, não era empático e se recusava obedecer a regras de jogos, sendo este último agravado caso o jogo oferecesse ameaça de alguém perder.

A atenção concentrada, sustentada e difusa, bem como as capacidades de raciocínios, ambas apresentaram desempenho dentro do esperado de sua idade e escolaridade. Ao fim da sessão o L. impulsivamente abraçou-me com muita força e recostou a cabeça em meu abdomem como criança que prepara-se para dormir, isto durou alguns segundos, muito mais do que as outras crianças costumam fazer.

Em entrevista somente com a mãe, após a quarta sessão com o L., obtivemos valiosas informações dentre elas que o progenitor de L. não desejava ser pai, mesmo tendo ele pouco mais de quarenta anos e que nunca havia brincado com os dois filhos. A mãe apresentou sintomas de depressão antes e após o parto e que não fora tratados. Havia manifestações de ciúmes da filha do casamento anterior da mãe para com as crianças que eram transmitidos na forma de perseguição, comparações e “má vontade” para pequenos favores domésticos. Indagada sobre o comportamento do filho na infância, a mãe deu destaque de que ele tinha amigos imaginários, adorava carros e que mantinha contatos sociais saudáveis com outras crianças, embora preferisse brincar sozinho, mesmo que na companhia dos outros. Constantemente falava em monstros e de como eles comiam todos os objetos que estavam próximos dele.

No dia 08/12/10, o paciente foi encaminhado à psiquiatria a fim de ser revista a medicação por termos concluídos que a causa de seu comportamento acontecia por conta de sua estrutura clínica psicótica. O mesmo foi medicado com resperidona, as outras medicações suspensas progressivamente. No dia 13/12/10 L. estava mais calmo e apresentado seus sintomas com menor freqüência, ainda que intensos.


Conclusão

A estruturação subjetiva da criança, segundo Jerusalinsky (1993), é algo provisório e que ocorre no tempo da infância. Portanto o olhar sobre a psicose infantil, de um modo geral deve ser vista como não decididas.

As condições para a cura de uma criança psicótica só são operantes a partir das transformações no nível da palavra da criança que, alienada no discurso dos pais, precisará se separar deste discurso. A criança não é outra coisa se não o falo da mãe e o seu Outro é absoluto.

A psicanálise busca em seu arcabouço teórico meios para reintroduzir a criança psicótica no mundo da cultura. Como Tustin (1984) destaca a importância da cautela do psicoterapeuta em não descartar a possibilidade de causas neurológicas ou metabólicas nas bases originárias desta formação mental e que a psicogênese da psicose infantil acontece a partir de uma experiência penosa e traumática da criança com o “não-eu” sendo que a mesma ainda não tendo estrutura capaz de suportar. Segundo esta autora o período de quatro meses após o nascimento do bebê deveria ser considerado como período de gravidez extra-uterina onde a mãe deve perceber o ritmo corporal e de adaptação da criança para que esta última crie objetos transicionais a fim de suportar a separação e a convivência com o “não-eu”.



Referência Bibliográfica


FREUD, S. “As Neuropsicoses de Defesa” (1894); in E.S.B., vol. III. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006.

________ “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Op Cit., vol. VII

________ “Sobre as Teorias Sexuais das Crianças” (1908). Op Cit., vol. IX

________ “Neurose e Psicose” (1924 [1923]). Op. Cit., vol. XIX.

________ “A dissolução do Complexo de Édipo” (1924b). Op. Cit., vol. XIX.

________ “A perda da realidade na neurose e na psicose (1924c). Op. Cit., vol XIX.


FREUD, S. “À Guisa de Introdução ao Narcisismo”; in Obras Psicológicas de Sigmund Freud, vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 2004.


KUPFER, M. Cristina M.. Notas sobre o diagnóstico diferencial da psicose e do autismo na infância. Psicologia USP, São Paulo, v. 11, n. 1, 2000. <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642000000100006&lng=en&nrm=iso>. acessado em 26/06/2011. doi: 10.1590/S0103-65642000000100006.


JERUSALINSKY, A. Psicose e autismo na infância: Uma questão de linguagem. Psicose, 4(9). Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre/ RS, (1993)


LAPLANCHE J.; PONTALIS J.B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.


MANNONI, M. A criança, sua doença, e os outros. Rio de janeiro: Guanabara, 1987.


MOREIRA, Jaqueline de O. “O Édipo em Freud: O movimento de uma teoria”. Psicologia em Estudo – Maringá, v.9, n. 2, p. 219-227, mai./ ago. 2004


QUINET, Antonio. “As 4+1 Condições da Análise”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.


TUSTIN, Frances. Estados Austístico em Crianças. Rio de Janeiro: Imago. 1984

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