O papel da esperança na predição de estilos e dimensões parentais
Autores: Wellington Machado da Silva (ISMC); Erika Jordão (UNESA); Diogo Bonioli Alves Pereira (UFRJ)
1. INTRODUÇÃO
A esperança disposicional é um construto da Psicologia Positiva relacionado à capacidade de estabelecer objetivos, identificar caminhos para alcançá-los e mobilizar esforços diante das adversidades (Snyder, 2000; Pacico et al., 2013). No contexto familiar, constitui um potencial recurso psicológico associado à motivação, ao envolvimento dos responsáveis na educação dos filhos e ao enfrentamento dos desafios da parentalidade (Lopez & Snyder, 2003; Pione et al., 2023).
Os estilos parentais compreendem padrões de práticas educativas caracterizados por diferentes níveis de afeto, comunicação, exigência e controle, estando associados ao desenvolvimento emocional, comportamental e social de crianças e adolescentes (Oliveira et al., 2018; Laskoski et al., 2022). Estudos recentes destacam sua relação com comportamentos agressivos, saúde mental, uso de substâncias e desenvolvimento de habilidades socioemocionais (Wechsler et al., 2021; Juarez Viera & Gonzáles Ponce de León, 2024).
Apesar dos avanços nas investigações sobre os estilos parentais e seus efeitos no desenvolvimento infantojuvenil, permanece relevante compreender quais recursos psicológicos dos responsáveis estão associados às diferentes práticas educativas. Nesse contexto, a esperança disposicional emerge como um construto potencialmente relacionado ao exercício da parentalidade.
2. OBJETIVO
Investigar em que medida os níveis de esperança disposicional predizem os estilos e as dimensões parentais em responsáveis por crianças e adolescentes.
Hipótese: Níveis mais elevados de esperança disposicional estão associados a maiores escores em estilos e dimensões parentais positivas e menores escores em práticas parentais negativas.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Segundo a Teoria da Esperança de Snyder (2000), a esperança disposicional compreende dois componentes interdependentes: a agência (agency), relacionada à motivação para alcançar objetivos, e os caminhos (pathways), referentes à capacidade de identificar estratégias para sua realização.
No exercício da parentalidade, tais recursos podem estar associados ao planejamento, à persistência e à regulação das práticas educativas diante dos desafios cotidianos.
O estilo parental democrático caracteriza-se pelo equilíbrio entre responsividade afetiva, comunicação e estabelecimento de limites. O estilo autoritário privilegia o controle e a exigência, enquanto o permissivo apresenta maior indulgência e menor imposição de limites. Essas características estão relacionadas a diferentes aspectos do desenvolvimento psicossocial e das relações familiares (Oliveira et al., 2018; Laskoski et al., 2022).
4. METODOLOGIA
Estudo quantitativo, transversal, exploratório e correlacional, com amostragem não probabilística por conveniência. Participaram 112 pais e mães com filhos de até 18 anos, recrutados por meio de formulários eletrônicos e impressos.
Foram utilizados quatro instrumentos: questionário sociodemográfico, questionário de percepção parental, Questionário de Estilos e Dimensões Parentais (QEDP — Versão Reduzida) e Escala de Esperança Disposicional (EED).
As análises foram realizadas no software jamovi, utilizando estatísticas descritivas e regressões lineares simples. O escore total da EED foi considerado variável preditora, enquanto os três estilos e as sete dimensões parentais constituíram as variáveis dependentes.
Foram examinados os coeficientes de regressão padronizados (β), os coeficientes de determinação (R²) e a significância estatística, adotando-se nível de 5% (p < 0,05). Também foi considerada a correção de Holm para múltiplas comparações.
Caracterização da amostra
A amostra foi composta por 112 participantes, predominantemente do gênero feminino (84,8%; n = 95), com maior concentração nas faixas etárias de 41 a 60 anos (51,8%) e de 26 a 40 anos (41,1%).
Foram contemplados os quatro estados da Região Sudeste, com predomínio do Rio de Janeiro (87,5%), seguido por Minas Gerais (8,0%), São Paulo (3,6%) e Espírito Santo (0,9%). Quanto ao estado civil, prevaleceram participantes casados (52,7%), solteiros (21,4%) e em união estável (11,6%).
A idade média dos filhos foi de 11,3 anos (DP = 3,31), variando de 4 a 18 anos, considerando 102 respostas válidas.
5. RESULTADOS

A esperança disposicional apresentou associação preditiva positiva e significativa com o estilo democrático (β = 0,371; p < 0,001), explicando 13,7% de sua variabilidade. Observou-se associação negativa com o estilo permissivo (β = −0,220; p = 0,020), com 4,85% de variância explicada. O estilo autoritário não apresentou associação estatisticamente significativa (p = 0,142).

A esperança apresentou associações positivas e significativas com apoio e afeto (β = 0,426; R² = 0,181), regulação (β = 0,293; R² = 0,086) e autonomia (β = 0,251; R² = 0,063). A indulgência apresentou associação negativa (β = −0,220; p = 0,020), enquanto coerção física, hostilidade verbal e punição não alcançaram significância estatística.
Após a correção de Holm para as sete comparações dimensionais, permaneceram significativas as associações com apoio e afeto, regulação e autonomia. A indulgência não manteve significância após esse ajuste.

6. DISCUSSÃO
Os resultados apontam que a esperança disposicional apresenta maior capacidade explicativa sobre o estilo parental democrático, especialmente nas dimensões de apoio e afeto, regulação e autonomia. Esses achados são compatíveis com a perspectiva de Snyder (2000), segundo a qual a esperança envolve motivação e planejamento de caminhos para alcançar objetivos.
No contexto da parentalidade, tais recursos podem estar associados à manutenção de práticas educativas caracterizadas por acolhimento emocional, estabelecimento de limites e incentivo à autonomia dos filhos.
A associação negativa com o estilo permissivo sugere que responsáveis com maiores níveis de esperança tendem a apresentar menores escores de indulgência. Entretanto, essa associação dimensional não permaneceu significativa após a correção de Holm.
A ausência de associações significativas com coerção física, hostilidade verbal e punição indica que a esperança não explica de maneira estatisticamente consistente todas as práticas parentais investigadas.
7. CONCLUSÃO
Os resultados sugerem que a esperança disposicional constitui um preditor estatístico relevante do estilo parental democrático, sobretudo das dimensões de apoio e afeto, regulação e autonomia. A dimensão apoio e afeto apresentou a maior variabilidade explicada (18,1%), destacando a associação entre esperança e práticas educativas afetivas.
Os achados contribuem para a compreensão da esperança como possível recurso psicológico relacionado ao exercício da parentalidade e apontam sua relevância para futuras investigações e intervenções de promoção de práticas parentais positivas.
Considerando o delineamento transversal e a amostragem por conveniência, os resultados não permitem estabelecer causalidade ou generalização populacional, sendo necessários estudos longitudinais para aprofundar essas relações.
8. REFERÊNCIAS
Juarez Viera, W. S., & Gonzáles Ponce de León, E. R. (2024). Estilos de crianza y conductas agresivas en estudiantes de secundaria del Centro Poblado Samán, 2023. Investigación Psicológica, 11–24.
Laskoski, L. M., Fernandes, M. N., & Doria, G. M. S. (2022). Parenting styles and moral emotions of adolescents in conflict with the law. Paidéia (Ribeirão Preto), e3207.
Lopez, S. J., & Snyder, C. R. (2003). Positive psychological assessment: A handbook of models and measures.
Oliveira, T. D., Costa, D. de S., Albuquerque, M. R., Malloy-Diniz, L. F., Miranda, D. M., & de Paula, J. J. (2018). Cross-cultural adaptation, validity, and reliability of the Parenting Styles and Dimensions Questionnaire – Short Version (PSDQ) for use in Brazil.
Brazilian Journal of Psychiatry, 40, 410–419. https://doi.org/10.1590/1516-4446-2017-2314
Pacico, J. C., Bastianello, M. R., Zanon, C., & Hutz, C. S. (2013). Adaptation and validation of the dispositional hope scale for adolescents. Psicologia: Reflexão e Crítica, 26(3), 488–492. https://doi.org/10.1590/S0102-79722013000300008
Pione, R. D., Stoner, C. R., Cartwright, A. V., & Spector, A. (2023). Measuring hope and resilience in carers of people living with dementia: The positive psychology outcome measure for carers (PPOM-C). Dementia, 22(5), 978–994. https://doi.org/10.1177/14713012231165113
Snyder, C. R. (2000). The past and possible futures of hope. Journal of Social and Clinical Psychology, 19(1), 11–28. https://doi.org/10.1521/jscp.2000.19.1.11
Wechsler, A. M., Bution, D. C., Galvão, T., Diniz, J. G., & Gabriel, C. B. (2021). O papel mediador dos estilos parentais no ajustamento psicológico de crianças e adolescentes com doenças crônicas. Interação em Psicologia, 131–143.





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